Detetives do Lodo: O que os Bichinhos do Rio Poxim Revelam sobre a Nossa Água
1. Introdução: O Rio que nos Alimenta (e o que ele Esconde)
Você já parou para pensar de onde vem a água que escova seus dentes ou prepara o seu café? Se você mora na Grande Aracaju, há uma chance de 30% de que ela venha de um "gigante silencioso": o Rio Poxim Açu. Ele é o coração hídrico que sustenta cerca de 800 mil pessoas, mas, como todo coração, ele precisa estar saudável para funcionar bem. Mas como saber se a água está realmente boa sem depender apenas de máquinas caras? A resposta está no fundo do rio, com os nossos "fofoqueiros da natureza": os macroinvertebrados bentônicos. Esses pequenos animais (larvas de insetos, moluscos e vermes) vivem no lodo e não conseguem fugir quando a sujeira chega; eles são o testemunho vivo da qualidade ambiental. Em junho de 2025, acompanhamos uma expedição de biomonitoramento da UFS (Universidade Federal de Sergipe) no Povoado Quissamã para agir como verdadeiros detetives e interrogar esses moradores do fundo do rio.
2. As Ferramentas da Investigação: AMBI e BENTIX (Os Tradutores de Bichos)
Para entender o que os bichinhos estão "falando", os cientistas usam tradutores chamados índices bióticos. Pense neles como termômetros de poluição que medem o nível de "bagunça" no ecossistema baseando-se em quem consegue morar ali.
• O Índice AMBI: Ele divide a vizinhança em cinco grupos de "personalidade":
◦ GEI - Os "Exigentes": Espécies sensíveis que só vivem no luxo da limpeza absoluta.
◦ GEII a GEIII - Os "Tolerantes": Aqueles que até aguentam uma poeira e uma certa desorganização, mas têm seus limites.
◦ GEIV a GEV - Os "Sobreviventes do Caos": Oportunistas que fazem a festa na poluição. Quando o rio está péssimo e todos os outros morrem, eles dominam o pedaço.
• O Índice BENTIX: É o irmão mais direto e simplificado. Ele não quer saber de detalhes: divide a galera apenas em Sensíveis (Grupo I) e Tolerantes (Grupos II a V).
3. Mão na Massa (ou melhor, no Lodo!): A Metodologia
A nossa cena do crime foi o trecho do Rio Poxim Açu no Povoado Quissamã. Para capturar os suspeitos, a equipe realizou a "dança do kick-net". Imagine um pesquisador segurando uma rede e fazendo um "shuffle" rítmico com os pés, chutando levemente o cascalho e a lama para "sacudir o tapete do rio" e ver o que cai na rede.
A água estava visivelmente barrenta (uma pista importante de turbidez alta), mas os detetives não recuaram. Durante 20 minutos, coletamos amostras em areia, lama e pedras. Depois, todos os suspeitos foram conservados em álcool 70% e levados para o laboratório do IFS para passarem pela lupa dos especialistas.
4. Quem foi Encontrado? O Elenco de Personagens
O fundo do Poxim revelou uma vizinhança agitada, mas que conta uma história de resistência. Confira os principais nomes que levamos para o "interrogatório":
Nome do Bicho | Identidade Visual (O que o define) | Personalidade | O que ele nos diz |
|---|
Laeonereis acuta | O "campeão da abundância" (702 indivíduos encontrados). | Tolerante / Oportunista | Indica um ecossistema impactado com baixa diversidade biológica. |
Megapodagrionidae | O "Punk Rocker" do lodo: possui abdome com espinhos dorsais e laterais. | Sensível | Sua presença é um ótimo sinal; ele busca águas de melhor qualidade. |
Melanoides tuberculata | Caramujo de concha alongada e resistente. | Tolerante | Aguenta firme o tranco da poluição e do estresse ambiental. |
Gomphidae | Larva de libélula com um "snorkel" (cifão) para respirar. | Sensível | Exige condições melhores; é um indicador de equilíbrio quando em alta quantidade. |
Nepidae | O "Escorpião d’água": possui um tubo respiratório longo na traseira. | Tolerante | Adaptado para respirar mesmo quando a água não está tão oxigenada. |
Mytella falcata | Molusco bivalve de concha escura. | Sensível / Indiferente | Prefere águas menos perturbadas pela ação humana. |
5. O Veredito: A Água passou no Teste?
Os pequenos detetives do lodo trouxeram um relatório preocupante. O índice BMWP, que dá uma nota geral para o trecho, marcou 48 pontos. Na escala científica, isso significa: "Águas Poluídas" ou um "Sistema Alterado". A abundância massiva de Laeonereis acuta (702 indivíduos!) e a presença de mais de 30 caramujos Melanoides e 20 camarões Macrobrachium jelskii dão o flagrante: o rio está sofrendo. Os principais culpados? A alta turbidez (água barrenta) causada pelas chuvas, mas principalmente o desmatamento das matas ciliares e o descarte de resíduos humanos.
Para entender o que o rio deveria ser, realizamos um exercício técnico comparando 5 pontos diferentes:
• Pontos 1 e 2: O "lado sombrio" – águas pobres e poluídas, onde a vida é difícil.
• Ponto 4 (O "Paraíso"): Este foi o nosso local de referência. Classificado como de Alta Qualidade, é o "padrão ouro" que mostra como o Poxim seria se estivesse totalmente preservado.
• Pontos 3 e 5: O "meio termo" – locais com condição moderada, ainda tentando se recuperar.
6. Conclusão: Por que você deve se importar?
A saúde desses bichinhos está conectada diretamente à sua torneira. A água coletada para a ETA Poxim reflete o estado desses ecossistemas. Se os bichinhos "exigentes" estão sumindo, o custo para tratar a água sobe e a segurança do nosso abastecimento desce.
Para sermos bons guardiões desse recurso, precisamos de três passos urgentes:
1. Restaurar as matas ciliares: Devolver a "barba" de floresta ao rio para filtrar a sujeira.
2. Educação Ambiental: Mostrar às comunidades que o rio não é um bueiro.
3. Fiscalização: Controle rígido contra o esgoto e resíduos industriais.
No mundo da água, os menores residentes contam as maiores verdades. Você está pronto para ouvir?
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7. Referências e Créditos
Este relatório foi baseado nos estudos de biomonitoramento da Universidade Federal de Sergipe (UFS), sob a orientação do Professor Dr. Leonardo Cruz da Rosa. Utilizamos os consagrados índices de Borja et al. (AMBI) e Simboura & Zenetos (BENTIX).