1 - A história que a Prefeitura prefere esquecer: como as catadoras de mangaba perderam espaço na Barra dos Coqueiros
Por décadas, elas protegeram as mangabeiras. Hoje, precisam lutar para proteger o próprio direito de permanecer onde sempre viveram e trabalharam.
A recente tentativa da Prefeitura da Barra dos Coqueiros, com apoio de parte da Câmara de Vereadores, de retomar uma área destinada às catadoras de mangaba não é um fato isolado. É apenas o capítulo mais recente de uma história marcada pela omissão do poder público, pela expansão imobiliária desordenada e pelo enfraquecimento das comunidades tradicionais.
A decisão da Justiça Federal e Estadual de suspender a votação do projeto de lei trouxe alívio momentâneo às catadoras, mas também revelou algo preocupante: mesmo diante de um território reconhecido por sua importância social, cultural e ambiental, houve disposição para avançar com uma proposta cercada de questionamentos jurídicos.
A pergunta que fica é simples: como chegamos até aqui?
Muito antes dos condomínios, existiam as mangabeiras,, antes da Barra dos Coqueiros se tornar alvo da expansão imobiliária, das grandes incorporadoras e dos empreendimentos de alto padrão, o município já era conhecido por suas extensas áreas de mangabeiras.Essas árvores nunca foram apenas parte da paisagem. Delas dependiam dezenas de famílias que encontravam na coleta da mangaba uma fonte de renda, alimento e identidade cultural.
As catadoras de mangaba desenvolveram, ao longo de gerações, conhecimentos sobre os ciclos da natureza, os períodos de colheita e as formas de manejo que permitiram a conservação da espécie. Muito antes de existir qualquer discurso oficial sobre sustentabilidade, essas mulheres já praticavam uma relação equilibrada com o meio ambiente.
Não é exagero afirmar que parte das mangabeiras existentes hoje resistiu graças ao trabalho silencioso dessas comunidades.
O progresso chegou. Mas para quem?
A inauguração da Ponte Construtor João Alves, ligando Aracaju à Barra dos Coqueiros, transformou completamente o município.
Vieram novos moradores, vieram condomínios, vieram loteamentos, vieram empreendimentos turísticos.
O preço da terra disparou, o que antes era visto apenas como área de extrativismo passou a despertar enorme interesse econômico.
Diversos estudos da Universidade Federal de Sergipe mostram que esse crescimento urbano trouxe consequências diretas para as comunidades tradicionais. Áreas antes utilizadas para a coleta da mangaba foram cercadas, loteadas ou incorporadas ao mercado imobiliário, reduzindo o espaço disponível para a atividade extrativista.
O desenvolvimento urbano, que poderia ter ocorrido de forma planejada e conciliada com a preservação ambiental, acabou produzindo novos conflitos pelo uso da terra.
O silêncio das sucessivas administrações
Enquanto a cidade crescia, uma pergunta permanecia sem resposta:Onde estavam as políticas públicas para proteger as catadoras?
Ao longo dos anos, poucas iniciativas estruturantes foram implementadas para garantir segurança territorial, fortalecer a cadeia produtiva da mangaba ou incentivar a permanência das comunidades tradicionais.
Não faltaram discursos exaltando a cultura local. Faltaram ações permanentes, as catadoras continuaram dependendo do apoio de Universidades, pesquisadores, movimentos sociais, Ministério Público e instituições como a Embrapa para dar visibilidade às suas demandas.
É difícil encontrar, na história recente do município, uma política pública contínua que tenha colocado as catadoras no centro da estratégia de desenvolvimento local.
Quando a terra vale mais que a história
A realidade da Barra dos Coqueiros revela um dilema que se repete em diversas regiões do Brasil.
À medida que a terra se valoriza, aumenta também a pressão sobre aqueles que tradicionalmente ocupam esses espaços, comunidades indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, marisqueiras e
Catadoras de mangaba.
Todos acabam enfrentando um adversário comum: a lógica de que o território só tem valor quando pode gerar lucro imobiliário, mas uma cidade não pode medir sua riqueza apenas pelo preço do metro quadrado. Ela também precisa preservar sua memória, sua cultura e as pessoas que ajudaram a construir sua identidade.
A contradição da Barra dos Coqueiros
Nos últimos anos, a mangaba passou a ocupar espaço nas campanhas institucionais do município, em eventos culturais e no discurso oficial sobre identidade local.
Isso é positivo.
O problema começa quando a mangaba é valorizada como símbolo, mas as mulheres que garantiram sua preservação continuam enfrentando insegurança sobre o território onde vivem e trabalham. Valorizar uma fruta sem proteger sua comunidade tradicional é reduzir um patrimônio cultural a uma peça de marketing.
A cultura não existe sem as pessoas que a mantêm viva.
A Justiça precisou intervir, a suspensão da votação do projeto pela Justiça Federal mostra que existiam questões relevantes a serem analisadas antes de qualquer decisão definitiva.Independentemente do resultado futuro do processo, uma lição já pode ser tirada.
Questões que envolvem comunidades tradicionais exigem diálogo, estudos técnicos, transparência e respeito aos direitos assegurados pela Constituição.
Não podem ser tratadas como mera questão administrativa, a Barra dos Coqueiros precisa decidir qual cidade quer ser.
O município está crescendo de forma desordenada sem espaços amplos de proteção ambieta, e ainda tem potencial para crescer mais.
As cidades mais desenvolvidas do mundo compreenderam que crescimento econômico e preservação cultural não são objetivos incompatíveis.
Pelo contrário, são complementares, as catadoras de mangaba não representam um obstáculo ao desenvolvimento. Representam uma parte da história que fez da Barra dos Coqueiros o que ela é hoje.
Se o município realmente deseja construir um futuro sustentável, precisa começar reconhecendo uma verdade simples:
Não existe desenvolvimento quando aqueles que preservaram o território são tratados como um problema, a Justiça Federal e Estadual suspendeu uma votação.
Mas o verdadeiro julgamento continua sendo feito pela sociedade. E a história costuma ser severa com governos que escolhem esquecer aqueles que vieram antes deles.
Fontes:
Justiça Federal suspende votação de PL que prevê moradias em área doada para catadoras de mangaba em SE
https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2026/07/16/justica-federal-suspende-votacao-de-pl-que-preve-moradias-em-area-doada-para-catadoras-de-mangaba-em-se.ghtml
Reportagem sobre a tentativa de retomada da área
https://g1.globo.com/google/amp/se/sergipe/videos-bom-dia-sergipe/video/retomada-de-terras-doadas-para-catadoras-de-mangaba-na-barra-dos-coqueiros-e-discutida-14781118.ghtml
https://infonet.com.br/noticias/cidade/justica-federal-suspende-votacao-sobre-terreno-das-catadoras-de-mangaba/
https://g1.globo.com/google/amp/se/sergipe/videos-bom-dia-sergipe/video/retomada-de-terras-doadas-para-catadoras-de-mangaba-na-barra-dos-coqueiros-e-discutida-14781118.ghtml
https://infonet.com.br/noticias/cidade/justica-federal-suspende-votacao-sobre-terreno-das-catadoras-de-mangaba/
Pesquisas da Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Tessituras, tramas e territorialidades das catadoras de mangaba na Barra dos Coqueiros
Autora: Valdélio Santos Silva
https://ri.ufs.br/handle/riufs/6746
A ação Estado-capital na produção do espaço e a expropriação das comunidades tradicionais
https://ri.ufs.br/handle/riufs/5524
Este trabalho mostra como a expansão imobiliária na Barra dos Coqueiros pressionou comunidades tradicionais.
https://ri.ufs.br/handle/riufs/4205
As Catadoras de Mangaba em Defesa dos seus Modos de Vida
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/handle/doc/1042163
8. Projeto Catadoras de Mangaba
https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/1808843/catadoras-de-mangaba-conquistam-direitos
Uso e conservação dos remanescentes de mangabeira em Barra dos Coqueiros
https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/3347
Mostra que as catadoras foram fundamentais para conservar áreas de mangabeiras.
Livro
https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/3347
Mostra que as catadoras foram fundamentais para conservar áreas de mangabeiras.
Livro
As Catadoras de Mangaba: Conhecimento Tradicional e Manejo Sustentável
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/
Movimento das Catadoras de Mangaba (MCM)
https://catadorasdemangaba.org.br/
Decreto Federal nº 6.040/2007
Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm