terça-feira, 21 de julho de 2026

Série Especial: (2) A quem interessa apagar a história das catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros?

 2 - Festival da Mangaba: quando a celebração substitui a política pública





Quando faltam políticas públicas, sobra palanque.


É mais fácil inaugurar um festival do que construir uma política permanente. É mais simples organizar uma programação de três dias do que enfrentar problemas que se arrastam por décadas. O palco é montado rapidamente. As luzes se apagam na última noite. Mas as dificuldades de quem vive da mangaba permanecem exatamente onde estavam.

O Festival da Mangaba pode ter seu valor como manifestação cultural e incentivo ao turismo. Ninguém discute isso.

O que se discute é a inversão de prioridades.

A mangaba virou símbolo institucional. Está nas campanhas publicitárias, nos discursos oficiais e no calendário de eventos. A fruta passou a representar a identidade do município, tem até lei que se limita a sua presevação e manutenção das espécies nativas Mangabeiras e Coqueirros, O coqueiro não é nativo, mas para a vereadora Guega que apresentou o projeto de Lei Nº 1237/2024, acostumada a ver na paisagem milhasres de coqueiros, achava que a espécie era nativa.




A mesma vereadora ficou em silência quando o tema sobre o terreno veio a tona, será porque ela agora faz parte da base da prefeitura? A quem serve os vereadores? Cadê os ideias? 

A mesma vereadora que apresentou uma lei para preserva as mangabeiras agora escolhe o silêncio justamente quando esse patrimônio está sob ameaça. Mudou de lado ou mudou de prioridade? Afinal, vereador representa o povo ou a conveniência política?

Quem apresenta um projeto de preservação também assume o compromisso político de cobrar sua execução, fiscalizar seu cumprimento e se posicionar quando o patrimônio que a própria lei pretende proteger está sob ameaça.

Mas preservar não é organizar eventos. Preservar é transformar a lei em ação, garantir fiscalização, proteger os mangabeirais e apoiar as catadoras que mantêm viva essa tradição.


Depois disse ficam umas perguntas


Mas quem representa as catadoras?

Quem representa as famílias que dependem da mangaba para complementar sua renda?

Quem representa aqueles que há anos aguardam ações concretas para fortalecer essa atividade?

Enquanto o palco recebe investimentos, as reivindicações históricas continuam esperando respostas.

Onde estão as políticas permanentes de incentivo à produção?

Onde estão os programas de apoio à comercialização?

Onde está a assistência técnica continuada?

Onde está o incentivo ao turismo de base comunitária?

Onde estão as ações efetivas para proteger os mangabeirais e os territórios tradicionais?

Essas perguntas não encontram resposta em um show, em uma cerimônia de abertura ou em uma fotografia oficial.

Porque desenvolvimento não se mede pelo tamanho do palco, mede-se pela capacidade de transformar a vida das pessoas.

Uma gestão pública verdadeiramente comprometida com o patrimônio ambiental e cultural não utiliza a mangaba apenas como símbolo de promoção institucional. Da mesma forma, um Poder Legislativo comprometido não se limita a aprovar leis; ele fiscaliza sua execução, cobra resultados e se posiciona quando aquilo que a lei pretende proteger está ameaçado.

A preservação não acontece em discursos, cerimônias ou festivais. Ela acontece por meio de políticas públicas permanentes, fiscalização efetiva, proteção dos mangabeirais e apoio às catadoras que mantêm viva essa tradição há gerações.

A Lei Municipal nº 1.237/2024 representa um importante instrumento para a preservação das mangabeiras. No entanto, uma lei, por si só, não preserva nada. Quando deixa de ser executada, fiscalizada e cobrada, ela se transforma apenas em um documento arquivado. Lei que não sai do papel morre no papel.

O Festival da Mangaba pode ser um importante evento cultural e turístico, mas ele não substitui a responsabilidade do poder público. Quando o festival termina, os palcos são desmontados, as luzes se apagam, os artistas seguem para outras cidades e a divulgação institucional chega ao fim. As catadoras, porém, continuam enfrentando os mesmos desafios: a perda dos mangabeirais, a falta de incentivo à produção, as dificuldades de comercialização e a ausência de políticas públicas permanentes.

Por isso, a crítica não é ao festival, nem à cultura ou ao turismo. A crítica é à inversão de prioridades. Não basta celebrar a mangaba durante alguns dias se, durante o restante do ano, faltam ações concretas para proteger quem depende dela e preservar os territórios onde ela existe.

Uma cidade demonstra seu compromisso com a mangaba não pelo tamanho do palco que monta, mas pela capacidade de transformar leis em ações e discursos em resultados.


E quando faltam políticas públicas, sobra palanque.

Fontes:

Município da Barra dos Coqueiros. Lei nº 1.237, de 29 de outubro de 2024. Dispõe sobre a preservação e manutenção das espécies nativas mangabeiras e coqueiros no Município da Barra dos Coqueiros e dá outras providências. Legislações Municipais – Prefeitura de Barra dos Coqueiros

Embrapa Tabuleiros Costeiros – Mangaba

Movimento das Catadoras de Mangaba. Estudos e documentos sobre territórios tradicionais, conservação da mangabeira e direitos das catadoras.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

Série Especial: A quem interessa apagar a história das catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros?

 

1 - A história que a Prefeitura prefere esquecer: como as catadoras de mangaba perderam espaço na Barra dos Coqueiros




Por décadas, elas protegeram as mangabeiras. Hoje, precisam lutar para proteger o próprio direito de permanecer onde sempre viveram e trabalharam.


A recente tentativa da Prefeitura da Barra dos Coqueiros, com apoio de parte da Câmara de Vereadores, de retomar uma área destinada às catadoras de mangaba não é um fato isolado. É apenas o capítulo mais recente de uma história marcada pela omissão do poder público, pela expansão imobiliária desordenada e pelo enfraquecimento das comunidades tradicionais.

A decisão da Justiça Federal e Estadual de suspender a votação do projeto de lei trouxe alívio momentâneo às catadoras, mas também revelou algo preocupante: mesmo diante de um território reconhecido por sua importância social, cultural e ambiental, houve disposição para avançar com uma proposta cercada de questionamentos jurídicos.

A pergunta que fica é simples: como chegamos até aqui?


Muito antes dos condomínios, existiam as mangabeiras,, antes da Barra dos Coqueiros se tornar alvo da expansão imobiliária, das grandes incorporadoras e dos empreendimentos de alto padrão, o município já era conhecido por suas extensas áreas de mangabeiras.

Essas árvores nunca foram apenas parte da paisagem. Delas dependiam dezenas de famílias que encontravam na coleta da mangaba uma fonte de renda, alimento e identidade cultural.

As catadoras de mangaba desenvolveram, ao longo de gerações, conhecimentos sobre os ciclos da natureza, os períodos de colheita e as formas de manejo que permitiram a conservação da espécie. Muito antes de existir qualquer discurso oficial sobre sustentabilidade, essas mulheres já praticavam uma relação equilibrada com o meio ambiente.

Não é exagero afirmar que parte das mangabeiras existentes hoje resistiu graças ao trabalho silencioso dessas comunidades.

O progresso chegou. Mas para quem?


A inauguração da Ponte Construtor João Alves, ligando Aracaju à Barra dos Coqueiros, transformou completamente o município.

Vieram novos moradores, vieram condomínios, vieram loteamentos, vieram empreendimentos turísticos.

O preço da terra disparou, o que antes era visto apenas como área de extrativismo passou a despertar enorme interesse econômico.

Diversos estudos da Universidade Federal de Sergipe mostram que esse crescimento urbano trouxe consequências diretas para as comunidades tradicionais. Áreas antes utilizadas para a coleta da mangaba foram cercadas, loteadas ou incorporadas ao mercado imobiliário, reduzindo o espaço disponível para a atividade extrativista.

O desenvolvimento urbano, que poderia ter ocorrido de forma planejada e conciliada com a preservação ambiental, acabou produzindo novos conflitos pelo uso da terra.

O silêncio das sucessivas administrações

Enquanto a cidade crescia, uma pergunta permanecia sem resposta:

Onde estavam as políticas públicas para proteger as catadoras?

Ao longo dos anos, poucas iniciativas estruturantes foram implementadas para garantir segurança territorial, fortalecer a cadeia produtiva da mangaba ou incentivar a permanência das comunidades tradicionais.

Não faltaram discursos exaltando a cultura local. Faltaram ações permanentes, as catadoras continuaram dependendo do apoio de Universidades, pesquisadores, movimentos sociais, Ministério Público e instituições como a Embrapa para dar visibilidade às suas demandas.

É difícil encontrar, na história recente do município, uma política pública contínua que tenha colocado as catadoras no centro da estratégia de desenvolvimento local.

Quando a terra vale mais que a história


A realidade da Barra dos Coqueiros revela um dilema que se repete em diversas regiões do Brasil.

À medida que a terra se valoriza, aumenta também a pressão sobre aqueles que tradicionalmente ocupam esses espaços, comunidades indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, marisqueiras e Catadoras de mangaba.

Todos acabam enfrentando um adversário comum: a lógica de que o território só tem valor quando pode gerar lucro imobiliário, mas uma cidade não pode medir sua riqueza apenas pelo preço do metro quadrado. Ela também precisa preservar sua memória, sua cultura e as pessoas que ajudaram a construir sua identidade.

A contradição da Barra dos Coqueiros

Nos últimos anos, a mangaba passou a ocupar espaço nas campanhas institucionais do município, em eventos culturais e no discurso oficial sobre identidade local.  Isso é positivo!

O problema começa quando a mangaba é valorizada como símbolo, mas as mulheres que garantiram sua preservação continuam enfrentando insegurança sobre o território onde vivem e trabalham. Valorizar uma fruta sem proteger sua comunidade tradicional é reduzir um patrimônio cultural a uma peça de marketing.



A cultura não existe sem as pessoas que a mantêm viva.

A Justiça precisou intervir, a suspensão da votação do projeto pela Justiça Federal mostra que existiam questões relevantes a serem analisadas antes de qualquer decisão definitiva.

Independentemente do resultado futuro do processo, uma lição já pode ser tirada.

Questões que envolvem comunidades tradicionais exigem diálogo, estudos técnicos, transparência e respeito aos direitos assegurados pela Constituição.

Não podem ser tratadas como mera questão administrativa, a Barra dos Coqueiros precisa decidir qual cidade quer ser.

O município está crescendo de forma desordenada sem espaços amplos de proteção ambieta, e ainda tem potencial para crescer mais.

As cidades mais desenvolvidas do mundo compreenderam que crescimento econômico e preservação cultural não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, são complementares, as catadoras de mangaba não representam um obstáculo ao desenvolvimento. Representam uma parte da história que fez da Barra dos Coqueiros o que ela é hoje.

Se o município realmente deseja construir um futuro sustentável, precisa começar reconhecendo uma verdade simples:

Não existe desenvolvimento quando aqueles que preservaram o território são tratados como um problema, a Justiça Federal e Estadual suspendeu uma votação.

Mas o verdadeiro julgamento continua sendo feito pela sociedade. E a história costuma ser severa com governos que escolhem esquecer aqueles que vieram antes deles.






Fontes:


Justiça Federal suspende votação de PL que prevê moradias em área doada para catadoras de mangaba em SE

https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2026/07/16/justica-federal-suspende-votacao-de-pl-que-preve-moradias-em-area-doada-para-catadoras-de-mangaba-em-se.ghtml


Pesquisas da Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Tessituras, tramas e territorialidades das catadoras de mangaba na Barra dos Coqueiros

Autora: Valdélio Santos Silva

https://ri.ufs.br/handle/riufs/6746
A ação Estado-capital na produção do espaço e a expropriação das comunidades tradicionais

https://ri.ufs.br/handle/riufs/5524

Este trabalho mostra como a expansão imobiliária na Barra dos Coqueiros pressionou comunidades tradicionais.
 
https://ri.ufs.br/handle/riufs/4205

As Catadoras de Mangaba em Defesa dos seus Modos de Vida

https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/handle/doc/1042163
Projeto Catadoras de Mangaba

https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/1808843/catadoras-de-mangaba-conquistam-direitos

Uso e conservação dos remanescentes de mangabeira em Barra dos Coqueiros

https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/3347

Mostra que as catadoras foram fundamentais para conservar áreas de mangabeiras.
Livro
 
As Catadoras de Mangaba: Conhecimento Tradicional e Manejo Sustentável

https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/

Movimento das Catadoras de Mangaba (MCM)

https://catadorasdemangaba.org.br/

Decreto Federal nº 6.040/2007

Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm

Série Especial: (2) A quem interessa apagar a história das catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros?

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